27-07-2006

Salvia Divinorum no Shopping Iguatemi, 2055

ilustra Eduardo Kerges
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> Esse saiu na revista curitibana
Et Cetera [site aqui] número 8, que traz também Estrela Leminski, José Kozer, DW, Luiz Ruffato... etc.




: Dia dos Namorados

Por Ronaldo Bressane

Lost among the subway crowds
I try to catch your eye

Leonard Cohen, “Stories of the street”


– Mas você nunca morou com ninguém?

– Morar com alguém? Essa é boa. Não moro nem comigo mesmo...

Ele não me dá a mínima. O máximo que me concede é sua companhia zanzando pelos escombros deste shopping que havia na Faria Lima, alguma coisa com nome indígena. Zed sopra que gosta de flanar por velhas vitrines.

– Sentir vontade de ter coisas que não poderei jamais ter, Gas Gas.

Ele só me chama de Gas Gas. Jamais se lembra de que tive outros nomes. Jamais se lembra de que já entrou em mim quando eu era outras.

– A verdade é que nunca sinto vontade de ter nada – ele repete.

Eu já senti vontade de tê-lo. Durou umas horas, e meu nome não era Baby Gasoline. Era uma época em que usava a id Salvia Divinorum. Nos conhecemos numa feira. Na Feira da Benedito Calixto, quase na praia. Eu procurava fotos antigas de gente desconhecida para decorar minha sala, tinha pego um retrato de família e ele avisou: “Essa aí já tem dono”. Havia encomendado a foto ao dono do estande, me disse. Não quis me dizer se também colecionava imagens de anônimos, como eu, ou se de fato conhecia aquelas pessoas na foto. Falou o mesmo que agora:

– Vontade de ter o que não poderia jamais, sabe.

Mas, agora, no deserto deste museu, não tenho mais como reengatar essa conversa – ele vai me achar doida.

– Se achasse que sou louco, trocaria meu nome – tinha cantado, bêbado, em uma ex-casa.

Não vai acreditar que eu e Salvia somos uma, a mesma. Já tive uma enorme vontade de chegar nele e me declarar Salvia. Mas não posso. Não teria como provar – agora que perdi os royalties sobre minha id. Estou endividada até o pescoço com o Neverland Institute. Literalmente: devo 3 pescoços, meia dúzia de próteses faciais, umas cirurgias plásticas, centenas de tratamentos capilares, um crédito absurdo em fibras musculares de segunda linha e uns cinco ou seis dermoconstrutos. Não é fácil ser mulher hoje em dia.

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> O capítulo 12 do Mnemomáquina continua.

Comentários

"Não moro nem comigo mesmo" é ótimo. E "perder os royalties da sua id parece uma tendência do mundo moderno.
Bom texto. Espero por mais.
gd ab

Escrito por: Julio Cesar Corrêa | 27-07-2006

Bressa, pense nos leitores da terceira idade. Aumente essa fonte, rapaz! Beijos

Escrito por: Ivana Arruda Leite | 29-07-2006

muito bom esse texto, rapá, conto e fragmento de um longa; renderá

Escrito por: PAULO SCOTT | 29-07-2006

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