30-07-2006
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Trabalho estúpido. Trabalho estúpido. Trabalho estúpido. Dois filmes em cartaz na cidade focam trabalhos estúpidos. Saí deles me lembrando do meu tempo de pasteupman. Um deles é Factotum, de Bent Hamer. Paste-up é um serviço que não existe mais. O outro é Bubble, de Steven Soderbergh. Era 1988. Auge da hiperinflação. Eu trampava numa agência de publicidade. Trabalho estúpido. Havia um chefe dos seis pasteupmen, Seu Manuel. Yep. Um homem especializado em colar preços de coisas que jamais poderá comprar. Em Factotum, Chinaski [Bukowski] vai empilhando serviços idiotas tais como enfiar sapatos em caixas, entregar gelo, pilotar táxi, embalar pepino, consertar bicicletas e limpar estátuas. Em Bubble, três desgraçados labutam numa fábrica de bonecas duma cidade filhadaputa dos EUA, o país dos cretinos que trabalham estupidamente sonhando... com os comerciais de TV... que lhes sugerem como é bom ter um carro... que os possa levar a seu trampo idiota e de volta à sua casa imbecil... onde passam o tempo comendo e vendo TV. Pensando bem, um país como qualquer outro.
Um pasteupman é um cretino que sabe copiar, recortar e colar. Basicamente a base da literatura e do jornalismo modernos. Trabalho estúpido. Da próxima vez que me perguntarem qual foi minha maior influência literária, direi que foi Seu Manuel. Um cretino fundamental, diria Nelson Rodrigues. A gente trampava bem-lôco de cola benzina. Das 9h às 19h. Batendo cartão. Tendo descontados os minutos de atraso. Acumulando horas-extras para pagar o aluguel, o rango, o goró. O selviço era simples: colar preços, descolar preços, recortar números, colar números, criar preços. Éramos os idiotas-padrão da fase final da indústria. Colando números em letraset [alguém ainda sabe o que é isso?] sobre papel cartão preto para serem usados em comerciais de TV das Casas Buri - a maior rede varejista da época, hoje seria tipo uma Casas Bahia. Liquidificadores, ferros elétricos, sofás, bicicletas, geladeiras, TVs. Tudo mudando de preço muito rápido – a cada semana quando entrei, depois a cada dia, depois três vezes no mesmo dia, um ano depois. Trabalho estúpido, trabalho estúpido - como fiquei um ano fazendo isso? Para fugir da rotina, Chinaski bebe, fode, joga nos cavalos. Para fugir da rotina, o trio apático de Bubble fuma maconha, vê TV, come e comete crimes. Para fugir da rotina, we the gorgeous pasteupmen estendíamos o break do almoço por sobre as máquinas de fliperama do centrão de SP.
Recortar e colar números, reutilizando as mesmas letrasets. Ou então, usando o estilete, recortar e colar números de provas de anúncios para jornais. Ou ainda lambuzar de ecoline velhos fotolitos para reutilizá-los. O dia inteiro os sete matraqueando putaria e futebol, passando benzina para descolar os números, tirando a cola, reunindo-a em um grude imenso chamado michelin [não falo do dente de ouro do Cidadão Instigado nem do bonecão de pneu, mas é tudo a mesma merda], passando benzina para descolar os números, tirando a cola, reunindo-a em um grude imenso chamado michelin, matraqueando putaria e futebol. Seu Manuel se vestia mal, tinha hálito de meia velha, barriga de sapo, olhos vermelhos de cheirar cola. Um dia flagrei-o manguaçando benzina. Doidão, me confessou que não entendia como é que tinha homem que chupava buceta. “Vai saber o que a mulher enfia lá dentro”, mandou, colando uma vírgula seguida do número 99.
O número 99 foi a coisa que mais vi na vida. Number nine: number nine: number nine: number nine. Numb = entorpecido. Not that comfortably numb for me aquele trampo. Mas havia quem gostasse. Apesar do amor à cola-benzina, com o "advento da informática" os pasteupmen desapareceram, junto dos fotolitos, da letraset e do michelin. Milhares desempregados - gente que só sabia recortar, copiar e colar. Como a maioria dos escritores de hoje. Como a maioria dos trabalhadores de hoje. Pode-se aprender com a repetição da cretinice, reza um exasperado Bukowski: “Se você vai tentar, vá até o fim. Ou nem tente. Isso pode significar perder namoradas, mulheres, parentes, trampos e talvez sua cabeça [...]. Isolar-se é um dom”. Sim, sozinho é possível extrair epifanias do deserto. Em Bubble, vem em forma de crime. Em Factotum, de striptease. Seu Manuel tomou um corno da mulher e pulou do Viaduto do Chá. No IML, algum cretino teve de colar os pedacinhos de seus miolos com superbond. Outro trabalho estúpido. Custava chupar uma buceta?
00:50 Escrito em Film | Permalink | Comentários (4) | Enviar por e-mail
28-07-2006
Herzog come seu próprio chulé
Por amor ao cinema - e para pagar uma aposta - o diretor de Homem-Urso dá uma de Charles Chaplin e bota uma bota garganta abaixo numa boa. Se preferir, veja direto aqui, no Você Entuba.
17:00 Escrito em Film | Permalink | Comentários (0) | Enviar por e-mail
27-07-2006
Salvia Divinorum no Shopping Iguatemi, 2055
ilustra Eduardo Kerges
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> Esse saiu na revista curitibana
Et Cetera [site aqui] número 8, que traz também Estrela Leminski, José Kozer, DW, Luiz Ruffato... etc.
: Dia dos Namorados
Por Ronaldo Bressane
Lost among the subway crowds
I try to catch your eye
Leonard Cohen, “Stories of the street”
– Mas você nunca morou com ninguém?
– Morar com alguém? Essa é boa. Não moro nem comigo mesmo...
Ele não me dá a mínima. O máximo que me concede é sua companhia zanzando pelos escombros deste shopping que havia na Faria Lima, alguma coisa com nome indígena. Zed sopra que gosta de flanar por velhas vitrines.
– Sentir vontade de ter coisas que não poderei jamais ter, Gas Gas.
Ele só me chama de Gas Gas. Jamais se lembra de que tive outros nomes. Jamais se lembra de que já entrou em mim quando eu era outras.
– A verdade é que nunca sinto vontade de ter nada – ele repete.
Eu já senti vontade de tê-lo. Durou umas horas, e meu nome não era Baby Gasoline. Era uma época em que usava a id Salvia Divinorum. Nos conhecemos numa feira. Na Feira da Benedito Calixto, quase na praia. Eu procurava fotos antigas de gente desconhecida para decorar minha sala, tinha pego um retrato de família e ele avisou: “Essa aí já tem dono”. Havia encomendado a foto ao dono do estande, me disse. Não quis me dizer se também colecionava imagens de anônimos, como eu, ou se de fato conhecia aquelas pessoas na foto. Falou o mesmo que agora:
– Vontade de ter o que não poderia jamais, sabe.
Mas, agora, no deserto deste museu, não tenho mais como reengatar essa conversa – ele vai me achar doida.
– Se achasse que sou louco, trocaria meu nome – tinha cantado, bêbado, em uma ex-casa.
Não vai acreditar que eu e Salvia somos uma, a mesma. Já tive uma enorme vontade de chegar nele e me declarar Salvia. Mas não posso. Não teria como provar – agora que perdi os royalties sobre minha id. Estou endividada até o pescoço com o Neverland Institute. Literalmente: devo 3 pescoços, meia dúzia de próteses faciais, umas cirurgias plásticas, centenas de tratamentos capilares, um crédito absurdo em fibras musculares de segunda linha e uns cinco ou seis dermoconstrutos. Não é fácil ser mulher hoje em dia.
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> O capítulo 12 do Mnemomáquina continua.
11:50 Escrito em Ficção | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail
25-07-2006
A Vila das livrarias
Amanhã, quarta 26, Joca Reiners Terron e Daniel Galera debatem Literatura Urbana na Livraria da Vila. Espera-se que usem de boas maneiras à mesa. Já na quinta, os 'blogueiros' Marcelino Freire e Alexandre Soares Silva, e Evandro Affonso Ferreira, dono do sebo Sagarana, respondem à candente questão do nosso tempo: blog - a nova ferramenta do escritor? Sempre das 19h às 21h na Livraria da Vila, rua Fradique Coutinho, 915, f. 11/ 3814-5811, Vila Madalena - aliás, provavelmente o bairro paulistano mais bem-servido de livrarias. Além de cretinos, é claro. Ou seja - uma coisa não exclui a outra. Enfim, divago... passou, passou. Bora lá.
13:45 Escrito em Bora lá | Permalink | Comentários (3) | Enviar por e-mail
22-07-2006
Cuidado: tóxico
foto Renaud Monfourny
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> Essa saiu no O Globo de hoje. Grande figura, esse Tosches. Estou devendo um certo endereço a ele...
Com A última casa de ópio, o lendário Nick Tosches é afinal lançado no Brasil
por Ronaldo Bressane
Uma bexiga de cobra sendo comida viva numa rua de Hong Kong. Uma cebola de 35 dólares degustada com luxúria num restaurante fino de Nova York. Uma fuga da polícia na garupa de um motoqueiro dopado no Camboja. Em Bangcoc, uma prostituta massageia a virilha do narrador; em Sham Shui Po, vendem-lhe cédulas de 100 dólares com marca d’água, fita de segurança e entalhe perfeitos. Como aperitivo, um monólogo furioso contra um connaisseur que logra detectar um traço de pimentão a se ocultar por trás do aroma de cassis num Chateau Margâux 1978 porém não percebe a sutil nota de esterco que impregna o vinho. Perca as esperanças de vida fácil – adentramos o mundo de Nick Tosches.
Com A última casa de ópio, a editora Conrad suprime uma falha em nossas livrarias: não havia tradução em português para a escrita desse grande contemporâneo norte-americano. Crítico musical responsável, ao lado de gente como Lester Bangs (o crítico do filme Quase famosos), por levar o jornalismo rock’n’roll ao status de texto literário, Tosches, 56, é também biógrafo respeitado. Dele é a considerada a melhor biografia de um roqueiro já escrita, Hellfire, em que vira Jerry Lee Lewis do avesso. Para além do gênero, Tosches se interessou por figuras notáveis em campos diversos, como o entertainer Dean Martin (Dino), o boxeur Sonny Liston (The Devil and Sonny Liston) e o mafioso Arnold Rothenstein (King of Jews). Colaborador do New York Times e das revistas Rolling Stone e Vanity Fair, foi para esta última que escreveu a reportagem A última casa de ópio – o artigo ficou longo demais e virou esta pequena obra-prima.
Que se lê num só fôlego: parente do gonzo journalism de Hunter S. Thompson, o texto de Tosches comunga com ele as impressões vívidas de estranhas experiências mas é tecido com elegância quase proustiana, sem descuidar de um anárquico humor negro que lembra o melhor Millôr em sua revolta com a massificação da estupidez. É precisamente de uma invectiva contra o que denomina “a era do pseudoconhecimento”, “o modo pelo qual tentamos tolamente nos diferenciar da maioria medíocre”, detonada por uma cebola que custa 20 vezes o seu preço real, inflacionada pelos neo-cafoni, “otários pseudo-sofisticados, incapazes de reconhecer as melhores coisas da vida”, que Tosches resolve tomar ópio. Mas, é claro, ele não encontra ópio em Nova York, pois a droga – matéria-prima da demonizada heroína – está há muito tempo ultraproibida. É então que Tosches parte em busca de uma casa em que ele possa consumir o fumo obtido da papoula, do mesmo modo que a ingeriam Charles Baudelaire, Thomas de Quincey, Jean Cocteau, Samuel Coleridge e até mesmo Homero – e nisso o autor acaba registrando uma verdadeira história literária da substância. “Visões de locais escuros, de decadência luxuosa, com cortinas de brocado e almofadas de veludo, recendendo a uma mistura de fumaça e aroma de incensos e da própria substância celestial, proibida, fabulosa [...]. Atemporalidade. Santuário. Membros adoráveis despontando das vestes entreabertas de relaxadas e exóticas concubinas, docemente intoxicadas [...]. Eu nasci para fumar ópio numa casa de ópio”, escreve ele.
lendo com Patti Smith no Centre Georges Pompidou
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Escrever é magia negra
Sua busca por ópio pode ser lida como a fuga de uma sociedade dominada pela mediocridade?, perguntou O Globo a Tosches, em entrevista por e-mail. “Acho que esse escape está se tornando cada vez mais difícil”, afirma o autor. “Para onde formos nesse mundo, é mais e mais o mesmo estéril mundo consumista. E sim, claro, o ópio é uma fuga – uma bela fuga. As pessoas falam de escapismo como se fosse ruim. Talvez assistir à TV ou ler maus livros possam, sim, ser um escapismo tolo. Mas fugir de uma prisão... inferno, quem quer estar em uma prisão? E é nisso o que a moderna civilização está se tornando, para todos nós – exceto para a aristocracia, que pode ser descrita como as pessoas que presidem a ilusão da democracia: uma prisão. Podem não haver barras de ferro, mas nossas almas e imaginações e desejos estão presos pelas forças da civilização – que, afinal, não é assim tão civilizada”, politiza Tosches, defensor da legalização de todas as drogas. Mas em um mundo de drogas legalizadas, elas não poderiam ser usadas politicamente para criar exércitos de zumbis? “O mundo já está bastante cheio de zumbis”, diz, lacônico.
Ao lado da crítica da “era do pseudoconhecimento”, Tosches também dispara contra o confortável campo do turismo – e, tendo passado real risco de morte para dar uma tragadinha numa pocilga do Laos, parece saber o que diz. “Aventuras ‘de verdade’ estão quase impossíveis de achar. O que é ‘de verdade’ hoje em dia? As pessoas compram ‘aventuras’ pagas do mesmo jeito como compram leite. Seguras, homogêneas, previsíveis. Uma aventura real é algo que ninguém vende”, afirma o escritor, que diz ter sido a sua maior aventura "talvez aquele passeio de moto que eu descrevo no livro, aquele selvagem passeio no meio da noite dos pântanos cambojanos até Phnom Penh, furando um bloqueio policial, com ópio na cabeça e no bolso, tomando tiros dos tiras. Mas, no fundo, rindo de tudo".
Tosches breve terá lançado aqui seu calhamaço Country, considerado a suma do estilo nascido em Nashville – algo como se Zé Ramos Tinhorão tivesse se debruçado sobre o gênero. Como explica uma música caipira yankee ser a grande inspiração de milionários cantores bregas brasileiros? “Não consigo entender. Nem mesmo consigo compreender como o mesma country pop limpinha dos EUA é chamada de country music. A verdadeira, boa e velha música country – que é a que descrevo em meu livro – vai continuar para sempre, porém somente nos vinis. Havia músicas maravilhosas. A maioria da música atual é feita por máquinas”, atira ele, que hoje diz só apreciar Rolling Stones e o compositor minimalista estoniano Arvo Pärt.
O fleumático novaiorquino nascido em Newark, New Jersey, guarda munição ainda contra o jornalismo atual: "Acho que muitos jornalistas estão se tornando cada vez mais parte do mundo do entretenimento, ou, pior ainda, parte da máquina política. Muitos jornalistas escrevem o que lhes dizem para escrever, ou o que dizem que eles deveriam escrever, assim como muitas pessoas acreditam no que lhes dizem para acreditar, ou no que acham que deveriam acreditar", diz ele, que, embora seja partidário de mergulhar na ação atrás de histórias, não se vê como um jornalista gonzo. "Deixei este título para o querido e saudoso Dr. Thompson", declara, a quem, diz, nunca encontrou. "Realmente nem mesmo sei o que quer dizer 'gonzo'. Para o assim chamado 'new journalism', me lembro, voltando aos 1960’s e 1970’s, se referia a jornalismo com técnicas literárias. Mas se era 'novo' há 30 ou 40 anos, é velho agora. Eu acho que é meio maluco ficar dando nomes a tudo. Só chamo isso de escrever. É isso o que faço: eu escrevo."
Por falar em escrever, Tosches preserva sob negro silêncio suas novas aventuras. "Estou trabalhando em dois novos livros, um de ficção, outro de não-ficção. Mas realmente não posso falar sobre eles. Gostaria de mantê-lo em segredo. Prefiro trabalhar com discrição. Meus livros estão ficando cada vez mais profundos, abrangendo lugares secretos. Só posso trazê-los à luz quando estão prontos. Este novo provavelmente vai levar mais dois anos para que eu o termine. Então o segredo termina. É estranho: a maior parte é um segredo para mim também. Quase sempre nem sei o que vai acontecer na próxima página. É um tipo de magia negra."
Autor de livros de poesia e ficção (seu In the hand of Dante foi chamado pelo Guardian de grande romance criminal dos últimos anos), ex-viciado em drogas, autodidata erudito, adito em Hesíodo, Safo, Marlowe, Beckett, Pound e Borges, mulherengo dândi conhecido por chutar o traseiro de traficantes de Manhattan com seus mocassins de pele de leopardo, Tosches come todo dia no mesmo lugar: Da Silvano, o restaurante das cebolas de 35 dólares. E, interessado em contrastes sociais, embora não se creia um animal político ("A vida é muito curta para envolver-se com o inevitável e com o imutável"), o autor planeja vir ao Brasil. “Onde há violência, há vida, como há fogo no sangue. Onde milionários temem e dão as costas aos pobres, há senso de revolução no ar – como uma trovoada sem chuva”, finaliza.
15:15 Escrito em Books | Permalink | Comentários (5) | Enviar por e-mail
20-07-2006
Sandman
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> Essa saiu na Trip do mês, a 146, também alcunhada 'sleeping with asses issue' [ave, Maria Thereza, com o que será que ela sonha?]. Vai o abre na íntegra.
Just a dreamer?
Ele largou os EUA, onde participava de um dos mais importantes laboratórios de neurociência do mundo, para vir fundar um instituto de decodificação do processo de sono e memória. Em conversa com a TRIP, o brasiliense Sidarta Ribeiro fala de sonhos lúcidos, da ligação entre biologia e psicanálise, critica a preguiça nacional e afirma que transformar o Brasil em superpotência científica não é coisa de sonhador
por Ronaldo Bressane
“O sonho é uma simulação do futuro. Vou lhe dar um exemplo. Sempre que tenho uma situação de pressão, presto atenção aos sonhos e tenho boas respostas. Nos EUA, trabalhava numa estação de campo e dividia o carro com um colega. Uma vez, cheguei para buscar o carro, o cara o levou e foi pra casa. Não pude ir à estação. Fiquei puto! Liguei para o cara e ele veio com um ‘ah, esqueci’. Me enfureci e trabalhei o dia inteiro pensando em pegar o sujeito. Tenho 1,70 metro, mesmo assim achava que poderia dar uma bela descompostura nele, com seus dois metros de altura. Fui dormir emputecido. Então sonhei o que tinha planejado. No sonho, o cara me enchia de porrada. Lógico! Aí, acordei, e deixei pra lá – quando o mal está feito, não tem o que fazer, melhor passar um KY nisso. Assim os sonhos nos ensinam.”
O parágrafo acima não parece saído da boca de um dos mais importantes neurocientistas do mundo. Bem – não seria mesmo um dos melhores se fosse um cara comum. A começar pelo nome, tirado do clássico de Herman Hesse. O romance que conta a trajetória de um inquieto brâmane, xará de Sidarta Gautama, o Buda, em busca da iluminação, era um dos favoritos dos pais – um casal de taquígrafos que transcreviam discursos políticos no Congresso, em Brasília. Quando se descobre que a principal diversão de Sidarta Tollendal Gomes Ribeiro, 35, é a capoeira, ele vai surgindo como um sujeito ainda mais peculiar. E Sidarta entrou na roda, perceba, não no Brasil, mas em Nova York, há sete anos, guiado por dois mestres exilados – Boneco, na capoeira-regional, e João Grande, na capoeira-angola. “Capoeira é filosofia de vida: saber cair, ser mandigueiro”, descreve. O candango chegou aos EUA depois do mestrado em biofísica, no Rio de Janeiro, para estudar Neurociência na Universidade Rockefeller, em NY. Pouco depois, lançou um livro de contos, Entendendo as coisas (L&PM, 1998), e levou suas mandingas para a Carolina do Norte, em Durham, onde fica a Universidade Duke. Atraiu-o o famoso laboratório dirigido pelo paulistano Miguel Nicolelis, outro cérebro expatriado.
“Achava que era megalomaníaco até conhecer o Miguel. Ele é o Pelé da ciência brasileira”, elogia. Após publicar vários trabalhos ao lado do camisa 10 – no mais célebre, provaram que a memória é consolidada durante o sono profundo –, notou que seguiam direções diversas. Ao amostrar simultaneamente sinais elétricos de centenas de neurônios de ratos, e com os sinais controlar movimentos de braços robóticos, Nicolelis atingiu a pole position da neuroprotética. Já o interesse de Sidarta reside no processo de formação do sonho e da memória, foco do doutorado com o também brasileiro Claudio Mello, da Universidade do Oregon. Para impulsionar as pesquisas, o trio de exilados, figurinhas carimbadas em respeitadas revistas científicas como Nature, Science e PloS Biology, teve a onírica idéia de criar um instituto de neurobiologia... no Brasil. Assim nasceu o ambicioso Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Orçado em US$ 20 milhões, o dobro do custo da patriotada espacial brasuca – e com perspectivas muito superiores. Do tipo: saber como funciona o cérebro durante o sonho lúcido. Construir interfaces cérebro-máquina capazes até de controlar funções do corpo pela internet. Ou, ainda, simplesmente, desvendar a língua falada por macacos. Com os primeiros investimentos pingando de empresas e instituições ao redor do mundo, Sidarta retornou à terrinha.
O sonho de criar uma ilha de excelência em um paraíso tropical poderia virar pesadelo, não fosse o comportamento obsessivo e ao mesmo tempo zen do candango. Interessado em envolver os locais no NatalNeuro – que deverá abrigar escola para 250 crianças e clínica de saúde mental –, o neurobiólogo foi caçar alunos numa favela. “Começamos com os filhos de catadores da Favela Via Sul, meninos de rua mesmo. Só que os pais não os deixavam vir porque estavam perdendo dinheiro! Não sabia que seria tão difícil... Já registrei neurônio de rato sonhando, mas tentar ensinar algo para essas crianças é muito mais complexo”, ri. “Resolvi dar aula de capoeira para os moleques. O buraco era mais embaixo: vi que tinha primeiro que ensinar a não xingar... Mas tem de investir neles. Da capoeira, vão aos computadores”, acredita o entusiasmado Sidarta, que teve seu sonho postergado por atrasos nos investimentos e em sucessivos entraves burocráticos.
O cientista compensa o incômodo pela “falta de urgência” nacional retomando laços com o tal jeitinho. Dá diariamente aulas de capoeira, ouve na praia seus sons favoritos – Chico Science, Zeca Pagodinho –, se enfia nos contos de Guimarães Rosa ou em suas próprias narrativas. Adora carnaval – este ano, foi a Olinda entrar debaixo do dragão rubro-amarelo do bloco Eu Acho é Pouco. E pratica mergulho sempre que pode. Paixão mesmo, só pela capoeira, onde ganhou o apelido de Piloto, por usar óculos de jogador de basquete. Tudo sem largar as pesquisas, até as quatro da manhã, interrompidas por perrengues de desordem prática. Mais que a burocracia, só uma coisa aperreia Piloto. É a tese de doutorado da mulher, a também neurobióloga Janaína Hernandez Pantoja – ela a concluiria em maio, mas terá de ficar até o fim de 2006 na Carolina do Norte. “Tá bravo, viu!”, resigna-se o candango. A seguir, a conversa com o falante Sidarta. Fique frio: agnóstico, ele detesta papo-cabeça. E adora dormir – religiosamente, oito horas por dia.
> A entrevista segue aqui.
20:45 Escrito em Perfis | Permalink | Comentários (2) | Enviar por e-mail
17-07-2006
O colecionador de caveiras.

ilustra Eva Uviedo
Meio-dia, a claridade cai de tapa na cara, ele geme, a tatuagem de caveira agulhando a pele dos cotovelos, o tatuador com cara de chinês amarelado em ópio, os acordes do electro batendo na cabeça, o dia de porrada, ele geme, ela geme, geme alto e longamente a vizinha de cima, gata ciosa de sua alegria vermelha, flash, dia, acorde? Dormia com os cotovelos fincados no colchão, fetal, o travesseiro um ursinho, uma tábua de salvação. Havia enchido a caveira no dia anterior, a ressaca pegava forte, o banho o esperava, bandeira negra, amor - e o chuveiro apaga a sacanagem que vem do andar de cima.
Três horas da tarde. O carro dobra a esquina da Fradique Coutinho à direita e entra na Inácio Pereira da Rocha. Em frente ao BlenBlen, o carro é forçado a reduzir. À esquerda, uma negra Harley Davidson pilotada por um engravatado, que encara o carroceiro à direita. Este usa um lenço preto na cabeça. Na traseira de sua carreta, toda negra, três bandeiras Jolly Rogers – a clássica, de Edward England, a de perfil, com a caveira embandanada, de Henry Every, e a que troca os ossos por espadas, de Calico Jack. Quem ali o mais easy rider, o maurício na moto cara ou o traficante de tranqueiras da cidade? Ultrapassa os dois e segue reto pela Pedroso de Morais – o sol bate em cheio nos olhos, contudo ele não desce o tapa-sol nem quer óculos escuros.
Quatro horas: café, mais café, algo de trabalho e papos furados. Reunião com uma dupla de fotógrafos. Eles mostram as imagens da jornada de um médico idealista pelo Amazonas. O country doctor os levou a conhecerem Marta, uma senhora de 73 anos que vive completamente solitária em uma casa de palafita a vinte metros da margem do rio Negro. Marta não tem o nariz. Foi acometida de leishmaniose – um mosquito da família dos Psychodidae é o mensageiro da doença. Parece não ter também alguns músculos da face. Mesmo assim, é uma mulher que exala extraordinária solidez – como os esqueletos das bandeiras piratas, tão mortos que parecem vivos. Marta não é assim tão solitária: semana sim semana não, a visita o namorado – um pescador de 36 anos. A leishmaniose levou-lhe um olho. “Mas o outro olho dele é verde”, contou ela aos fotógrafos. É orgulhosa. E não tem de se preocupar com vizinhos de ouvidos em pé. Nem com cheiro de poluição.
Oito horas. O carro penetra o túnel da Cidade Jardim. Cinco viaturas da Polícia Militar paradas, o trânsito se engarrafa, galés emparedadas. Um ataque do PCC aqui? Os policiais interpelam um homem portando uma máscara antigases - que desenha nas paredes com o que parece ser um chumaço de estopa molhado. O carro pára bem ao lado da cena. Paciente, o homem tão-só retira a fuligem das paredes de concreto, criando um padrão, estranho mas familiar. O homem conversa com os policiais: “Estou limpando o muro. Se o governo achar que estou danificando o patrimônio público, pode terminar o meu trabalho e limpar tudo de uma vez. Seria um favor”, ri por trás da máscara. E prossegue sua arte. Os policiais batem no quepe e saem fora. Aproximando-se, ele reconhece o padrão: caveiras. A dor nos olhos volta – não deveria ter olhado o sol de frente, veja-se o exemplo de Merseault e de Zidane.
Meia-noite ela entra, fecha a porta, coloca a bolsa sobre a mesa. Caminha até a janela. Ela sem pressa, ele de ressaca. Ela solta um comentário sobre a péssima arquitetura que se vê do nono andar. Respira fundo, "pelo menos a lua cheia e a noite está quente", releva. E silencia. Tudo é noite perfumada, cheiro vermelho, de rosa, sangue, jolie rouge, e, nos ouvidos dele, o eco dos gemidos da vizinha – belisca os cotovelos para ter certeza de que é tudo verdade, sim, ela está ali. Ela volta a cabeça por sobre o ombro, sorri, a pinta em seu rosto lembra uma estrela inversa, mosquito a sublinhar de ironia seu olhar como um mínimo mamilo na maçã do rosto. Então, atira as sandálias a um canto, sem se voltar, desce o zíper do jeans, desliza as calças até o chão. Preta, em sua calcinha estampa-se uma alegre caveira - com asas projetadas de onde estariam as orelhas. Ela espalma as mãos no parapeito da janela, pernas separadas, empina a bunda. Respira fundo e elogia de novo a lua cheia, a noite quente. As asas abrem-se e fazem os ossos da face sobrevoarem mares nunca dantes navegados, nove andares abaixo e além.
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