20-07-2006

Sandman

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> Essa saiu na Trip do mês, a 146, também alcunhada 'sleeping with asses issue' [ave, Maria Thereza, com o que será que ela sonha?]. Vai o abre na íntegra.

Just a dreamer?

Ele largou os EUA, onde participava de um dos mais importantes laboratórios de neurociência do mundo, para vir fundar um instituto de decodificação do processo de sono e memória. Em conversa com a TRIP, o brasiliense Sidarta Ribeiro fala de sonhos lúcidos, da ligação entre biologia e psicanálise, critica a preguiça nacional e afirma que transformar o Brasil em superpotência científica não é coisa de sonhador

por Ronaldo Bressane



“O sonho é uma simulação do futuro. Vou lhe dar um exemplo. Sempre que tenho uma situação de pressão, presto atenção aos sonhos e tenho boas respostas. Nos EUA, trabalhava numa estação de campo e dividia o carro com um colega. Uma vez, cheguei para buscar o carro, o cara o levou e foi pra casa. Não pude ir à estação. Fiquei puto! Liguei para o cara e ele veio com um ‘ah, esqueci’. Me enfureci e trabalhei o dia inteiro pensando em pegar o sujeito. Tenho 1,70 metro, mesmo assim achava que poderia dar uma bela descompostura nele, com seus dois metros de altura. Fui dormir emputecido. Então sonhei o que tinha planejado. No sonho, o cara me enchia de porrada. Lógico! Aí, acordei, e deixei pra lá – quando o mal está feito, não tem o que fazer, melhor passar um KY nisso. Assim os sonhos nos ensinam.”

O parágrafo acima não parece saído da boca de um dos mais importantes neurocientistas do mundo. Bem – não seria mesmo um dos melhores se fosse um cara comum. A começar pelo nome, tirado do clássico de Herman Hesse. O romance que conta a trajetória de um inquieto brâmane, xará de Sidarta Gautama, o Buda, em busca da iluminação, era um dos favoritos dos pais – um casal de taquígrafos que transcreviam discursos políticos no Congresso, em Brasília. Quando se descobre que a principal diversão de Sidarta Tollendal Gomes Ribeiro, 35, é a capoeira, ele vai surgindo como um sujeito ainda mais peculiar. E Sidarta entrou na roda, perceba, não no Brasil, mas em Nova York, há sete anos, guiado por dois mestres exilados – Boneco, na capoeira-regional, e João Grande, na capoeira-angola. “Capoeira é filosofia de vida: saber cair, ser mandigueiro”, descreve. O candango chegou aos EUA depois do mestrado em biofísica, no Rio de Janeiro, para estudar Neurociência na Universidade Rockefeller, em NY. Pouco depois, lançou um livro de contos, Entendendo as coisas (L&PM, 1998), e levou suas mandingas para a Carolina do Norte, em Durham, onde fica a Universidade Duke. Atraiu-o o famoso laboratório dirigido pelo paulistano Miguel Nicolelis, outro cérebro expatriado.

“Achava que era megalomaníaco até conhecer o Miguel. Ele é o Pelé da ciência brasileira”, elogia. Após publicar vários trabalhos ao lado do camisa 10 – no mais célebre, provaram que a memória é consolidada durante o sono profundo –, notou que seguiam direções diversas. Ao amostrar simultaneamente sinais elétricos de centenas de neurônios de ratos, e com os sinais controlar movimentos de braços robóticos, Nicolelis atingiu a pole position da neuroprotética. Já o interesse de Sidarta reside no processo de formação do sonho e da memória, foco do doutorado com o também brasileiro Claudio Mello, da Universidade do Oregon. Para impulsionar as pesquisas, o trio de exilados, figurinhas carimbadas em respeitadas revistas científicas como Nature, Science e PloS Biology, teve a onírica idéia de criar um instituto de neurobiologia... no Brasil. Assim nasceu o ambicioso Instituto Internacional de Neurociência de Natal. Orçado em US$ 20 milhões, o dobro do custo da patriotada espacial brasuca – e com perspectivas muito superiores. Do tipo: saber como funciona o cérebro durante o sonho lúcido. Construir interfaces cérebro-máquina capazes até de controlar funções do corpo pela internet. Ou, ainda, simplesmente, desvendar a língua falada por macacos. Com os primeiros investimentos pingando de empresas e instituições ao redor do mundo, Sidarta retornou à terrinha.

O sonho de criar uma ilha de excelência em um paraíso tropical poderia virar pesadelo, não fosse o comportamento obsessivo e ao mesmo tempo zen do candango. Interessado em envolver os locais no NatalNeuro – que deverá abrigar escola para 250 crianças e clínica de saúde mental –, o neurobiólogo foi caçar alunos numa favela. “Começamos com os filhos de catadores da Favela Via Sul, meninos de rua mesmo. Só que os pais não os deixavam vir porque estavam perdendo dinheiro! Não sabia que seria tão difícil... Já registrei neurônio de rato sonhando, mas tentar ensinar algo para essas crianças é muito mais complexo”, ri. “Resolvi dar aula de capoeira para os moleques. O buraco era mais embaixo: vi que tinha primeiro que ensinar a não xingar... Mas tem de investir neles. Da capoeira, vão aos computadores”, acredita o entusiasmado Sidarta, que teve seu sonho postergado por atrasos nos investimentos e em sucessivos entraves burocráticos.

O cientista compensa o incômodo pela “falta de urgência” nacional retomando laços com o tal jeitinho. Dá diariamente aulas de capoeira, ouve na praia seus sons favoritos – Chico Science, Zeca Pagodinho –, se enfia nos contos de Guimarães Rosa ou em suas próprias narrativas. Adora carnaval – este ano, foi a Olinda entrar debaixo do dragão rubro-amarelo do bloco Eu Acho é Pouco. E pratica mergulho sempre que pode. Paixão mesmo, só pela capoeira, onde ganhou o apelido de Piloto, por usar óculos de jogador de basquete. Tudo sem largar as pesquisas, até as quatro da manhã, interrompidas por perrengues de desordem prática. Mais que a burocracia, só uma coisa aperreia Piloto. É a tese de doutorado da mulher, a também neurobióloga Janaína Hernandez Pantoja – ela a concluiria em maio, mas terá de ficar até o fim de 2006 na Carolina do Norte. “Tá bravo, viu!”, resigna-se o candango. A seguir, a conversa com o falante Sidarta. Fique frio: agnóstico, ele detesta papo-cabeça. E adora dormir – religiosamente, oito horas por dia.


> A entrevista segue aqui.

17-07-2006

O colecionador de caveiras.

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ilustra Eva Uviedo


Meio-dia, a claridade cai de tapa na cara, ele geme, a tatuagem de caveira agulhando a pele dos cotovelos, o tatuador com cara de chinês amarelado em ópio, os acordes do electro batendo na cabeça, o dia de porrada, ele geme, ela geme, geme alto e longamente a vizinha de cima, gata ciosa de sua alegria vermelha, flash, dia, acorde? Dormia com os cotovelos fincados no colchão, fetal, o travesseiro um ursinho, uma tábua de salvação. Havia enchido a caveira no dia anterior, a ressaca pegava forte, o banho o esperava, bandeira negra, amor - e o chuveiro apaga a sacanagem que vem do andar de cima.

Três horas da tarde. O carro dobra a esquina da Fradique Coutinho à direita e entra na Inácio Pereira da Rocha. Em frente ao BlenBlen, o carro é forçado a reduzir. À esquerda, uma negra Harley Davidson pilotada por um engravatado, que encara o carroceiro à direita. Este usa um lenço preto na cabeça. Na traseira de sua carreta, toda negra, três bandeiras Jolly Rogers – a clássica, de Edward England, a de perfil, com a caveira embandanada, de Henry Every, e a que troca os ossos por espadas, de Calico Jack. Quem ali o mais easy rider, o maurício na moto cara ou o traficante de tranqueiras da cidade? Ultrapassa os dois e segue reto pela Pedroso de Morais – o sol bate em cheio nos olhos, contudo ele não desce o tapa-sol nem quer óculos escuros.

Quatro horas: café, mais café, algo de trabalho e papos furados. Reunião com uma dupla de fotógrafos. Eles mostram as imagens da jornada de um médico idealista pelo Amazonas. O country doctor os levou a conhecerem Marta, uma senhora de 73 anos que vive completamente solitária em uma casa de palafita a vinte metros da margem do rio Negro. Marta não tem o nariz. Foi acometida de leishmaniose – um mosquito da família dos Psychodidae é o mensageiro da doença. Parece não ter também alguns músculos da face. Mesmo assim, é uma mulher que exala extraordinária solidez – como os esqueletos das bandeiras piratas, tão mortos que parecem vivos. Marta não é assim tão solitária: semana sim semana não, a visita o namorado – um pescador de 36 anos. A leishmaniose levou-lhe um olho. “Mas o outro olho dele é verde”, contou ela aos fotógrafos. É orgulhosa. E não tem de se preocupar com vizinhos de ouvidos em pé. Nem com cheiro de poluição.

Oito horas. O carro penetra o túnel da Cidade Jardim. Cinco viaturas da Polícia Militar paradas, o trânsito se engarrafa, galés emparedadas. Um ataque do PCC aqui? Os policiais interpelam um homem portando uma máscara antigases - que desenha nas paredes com o que parece ser um chumaço de estopa molhado. O carro pára bem ao lado da cena. Paciente, o homem tão-só retira a fuligem das paredes de concreto, criando um padrão, estranho mas familiar. O homem conversa com os policiais: “Estou limpando o muro. Se o governo achar que estou danificando o patrimônio público, pode terminar o meu trabalho e limpar tudo de uma vez. Seria um favor”, ri por trás da máscara. E prossegue sua arte. Os policiais batem no quepe e saem fora. Aproximando-se, ele reconhece o padrão: caveiras. A dor nos olhos volta – não deveria ter olhado o sol de frente, veja-se o exemplo de Merseault e de Zidane.

Meia-noite ela entra, fecha a porta, coloca a bolsa sobre a mesa. Caminha até a janela. Ela sem pressa, ele de ressaca. Ela solta um comentário sobre a péssima arquitetura que se vê do nono andar. Respira fundo, "pelo menos a lua cheia e a noite está quente", releva. E silencia. Tudo é noite perfumada, cheiro vermelho, de rosa, sangue, jolie rouge, e, nos ouvidos dele, o eco dos gemidos da vizinha – belisca os cotovelos para ter certeza de que é tudo verdade, sim, ela está ali. Ela volta a cabeça por sobre o ombro, sorri, a pinta em seu rosto lembra uma estrela inversa, mosquito a sublinhar de ironia seu olhar como um mínimo mamilo na maçã do rosto. Então, atira as sandálias a um canto, sem se voltar, desce o zíper do jeans, desliza as calças até o chão. Preta, em sua calcinha estampa-se uma alegre caveira - com asas projetadas de onde estariam as orelhas. Ela espalma as mãos no parapeito da janela, pernas separadas, empina a bunda. Respira fundo e elogia de novo a lua cheia, a noite quente. As asas abrem-se e fazem os ossos da face sobrevoarem mares nunca dantes navegados, nove andares abaixo e além.